Elza Berquó: Brasil está desperdiçando seu bônus demográfico

Demógrafa estuda desencanto de jovens e a gravidez depois dos 30
Para uma das maiores demógrafas brasileiras, o país não aproveita a oportunidade  única e histórica de educar melhor crianças e jovens para fazer frente aos  desafios que virão no futuro com o envelhecimento populacional cada vez mais  acelerado

Mariana Timóteo da Costa

Publicado: 14/09/13

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Aos 82 anos, a demógrafa Elza Berquó, na sede do Cebrap, aonde vai trabalhar  diariamente MichelFilho / Michel Filho

SÃO PAULO Villanova Artigas projetou um dos mais belos edifícios de São  Paulo, o da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Pouco depois, já na  ditadura militar, em 1967, o arquiteto construiu a casa de uma das mais  respeitadas intelectuais do país: a demógrafa Elza Berquó. Nascida em 1931, em  Minas Gerais, é na casa de Artigas, localizada na Zona Sul de São Paulo, que  Elza ainda vive, sozinha. Ela não teve filhos e ficou viúva há seis anos, mas  cuida de quatro jardins, recebe amigos, lê e assiste ao seu programa de TV  preferido: a série inglesa “Downtown Abbey”. Elza divide seu tempo entre a  hidroginástica, a casa e o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento),  onde trabalha de segunda a sexta, “sem hora para sair”. A organização, modelo de  pesquisa demográfica na América Latina, foi fundada por ela e outros dissidentes  afastados da USP pelo AI-5, como Fernando Henrique Cardoso.

— Tive milhares de convites para me exilar, mas eu preferi ficar no Brasil e  fazer uma resistência intelectual, o que tivemos a oportunidade de fazer no  Cebrap. Quando a democracia voltou, estava tão feliz aqui que nunca mais voltei  à USP — conta a demógrafa, que ainda fundou, em 1982, o Núcleo de Estudos  Populacionais (Nepo), na Unicamp, onde vai pouco, porém é parte ativa do corpo  de pesquisadores.

Formada em matemática e bioestatística, com mestrado na USP, Elza foi  pioneira em usar dados sobre a população para entender transformações no  comportamento e na saúde dos brasileiros. O que faz até hoje ao estudar os  jovens e a gravidez depois dos 30 anos.

O GLOBO – O IBGE acaba de divulgar novas projeções que mostram que o  Brasil passa por um momento único causado pela queda da fecundidade. Com menos  crianças e uma parcela ainda não tão grande de idosos, há proporcionalmente mais  pessoas em idade de trabalhar e um número menor de dependentes. Mas isso tem  prazo para acabar, já que o envelhecimento populacional acontecerá cada vez mais  rápido. Estamos aproveitando este bônus demográfico?

ELZA – Não, porque, à medida em que você tem menos jovens, deveria ter  melhores escolas, mas o jovem está sendo mal aproveitado. Se por um lado a  demografia ajuda o emprego no Brasil, porque há muita gente ainda em idade  economicamente ativa para preencher os postos de trabalho, é um paradoxo pensar  que uma pessoa não necessariamente precisa se educar melhor para ter um salário  satisfatório. É um desafio. Não à toa estamos começando a importar engenheiro,  médico. E o que fazer quando a população envelhecer?

Ao mesmo tempo, não se pode pensar que todo o mundo deva fazer uma faculdade.  Um carpinteiro precisa ter o mesmo respeito e a mesma chance de vida digna do  que um engenheiro. Investir em ensino profissionalizante pode ser uma boa  resposta para isso.

E essa população de idosos que precisará cada vez mais ser  sustentada?

A tendência é que as aposentadorias ocorram mais tarde, temos que jogar pra  frente a idade de parar. É logico que aí pode haver uma reação do jovem,  reclamando que o idoso está tomando o lugar dele. Trata-se de um conflito, mas  que precisa ser encarado.

As mulheres vêm tendo cada vez menos filhos. A senhora estuda muito a  gravidez depois dos 30. A que conclusões tem chegado?

De 2000 a 2010, o peso relativo da fecundidade das mulheres de 30 anos e mais  na fecundidade total passou de 28% para 31%, o que é muita coisa, e isso impacta  no mercado de trabalho, na indústria gigantesca da reprodução assistida, na  adoção. É um fenômeno fascinante, que abre uma série de possibilidades de  pesquisa. Estou ainda no início.

A senhora foi ativa na Conferência Internacional sobre População e  Desenvolvimento (CIPD) do Cairo, em 1994, considerada um marco. Quase 20 anos  depois, o que falta avançar?

Antes do Cairo tivemos a conferência de 1984 no México, onde foi decretado o  crescimento zero da população. Ou seja, a ONU financiou o que pôde para conter o  número de nascimentos. Mas o que as mulheres fizeram nesse intervalo? Foram se  articulando e mudaram completamente o eixo do Cairo, uma conferência histórica  onde deixamos de lado aquela ideia de que país pobre é país onde a mulher tem  mais filhos.

No Brasil, há avanços claros como o casamento entre pessoas do mesmo sexo —  mas é uma pena que isso não tenha sido aprovado pelo Congresso, e sim pelo  Supremo Tribunal Federal (STF). A pílula do dia seguinte felizmente pode ser  usada. Mas a questão do aborto continua, e nisso o Brasil não avançou em nada  porque não são todos os hospitais e médicos que interrompem a gravidez mesmo  quando a lei permite. E a classe política trata a questão vergonhosamente, com  medo de afastar eleitores. Enquanto isso milhares de mulheres morrem por abortos  mal feitos.

A senhora insiste há anos que o Brasil atrela pouco a educação à  saúde. A pílula do dia seguinte não seria melhor usada se a população feminina  fosse mais bem informada sobre ela?

Muita gente não toma porque não conhece. E assim chegamos ao projeto “Dar voz  aos jovens”, minha menina dos olhos. (O Centro Brasileiro de Análise e  Planejamento e a Fundação Carlos Chagas fazem, desde o ano passado, oficinas de  vídeos provocativos com alunos de escolas públicas de São Paulo, em que eles  narram experiências e dilemas sexuais). O que a gente vem verificando é que os  adolescentes desconhecem coisas básicas da própria fisiologia da reprodução  porque não a aprendem em lugar nenhum. Os cursos de pedagogia não ensinam  sexualidade, você acredita? Aí ninguém sabe lidar com o adolescente gay,  transgênero, com gravidez na adolescência.

Fonte: O Globo

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